Besouro usa Via Láctea como guia, aponta estudo na África do Sul

Do Globo Natureza, em São Paulo

Escaravelhos se alimentam de estrume, esculpindo bolas com o excremento e rolando o material para um lugar seguro (Foto: Reuters/Marcus Byrne/University of the Witwatersrand)

O besouro ou escaravelho – da família dos escarabeídeos (Scarabaeidae) – é o primeiro inseto que se guia pelas estrelas, sugere pesquisa publicada na revista “Current Biology”. Aves, focas e os humanos também usam a luz das estrelas como norte, mas esta é a primeira vez que isso foi mostrado em um inseto.
Os pesquisadores descobriram que, embora os olhos compostos desse inseto sejam fracos demais para ver estrelas individuais, eles utilizam a luz da Via Láctea para se manter em curso. Olhos compostos são aqueles formados por unidades visuais com pequenos sensores que distinguem a claridade da escuridão.
Os escaravelhos se alimentam de estrume, esculpindo uma bola com o excremento e rolando o esterco para um lugar seguro, onde é menos provável que seja roubado. No entanto, eles precisam de uma espécie de bússola que faça com que rolem o estrume em linha reta, em vez de círculos, impedindo que retornem ao monte de esterco.
Manter uma trajetória reta também é fundamental para o sucesso reprodutivo do escaravelho macho, já que o rolamento serve para impressionar as fêmeas com provisões para a futura prole. O besouro-fêmea coloca então um ovo na bola de excremento e a enterra numa rede de túneis com mais de um metro de profundidade. A bola serve de alimento para as larvas em desenvolvimento dentro dela.
Isso levou os cientistas a se perguntar como esses insetos eram capazes de rolar em linha reta na escuridão. “Mesmo em noites sem luar, os besouros ainda conseguiam orientar-se por caminhos retos”, disse Eric Warrant, autor do estudo e professor de zoologia da Universidade de Lund, na Suécia. “Isso nos levou a suspeitar que os besouros utilizavam o céu como guia – uma façanha que nunca foi demonstrada em um inseto”, afirmou.
Planetário
Para provar a tese, os pesquisadores criaram uma arena circular preenchida com areia e mediram o tempo que os besouros levaram para rolar uma bola de excremento do centro até a borda. O trajeto dos insetos foi filmado e eles foram equipados com pequenos pedaços de papelão para alterar seu campo de visão.
Imagem mostra trajetória de besouros em arena durante experimentos (Foto: Divulgação)

O experimento foi conduzido tanto ao ar livre, sob o céu noturno de uma reserva sul-africana, quanto em um planetário de Joanesburgo, onde os cientistas puderam manipular a luz das estrelas.
O resultado mostrou que os besouros que traçaram um caminho reto rapidamente até a borda o fizeram usando a luz natural da lua ou a luminosidade de um céu estrelado sem luar. Eles também rolaram em linha reta de forma eficiente quando uma imagem da Via Láctea foi projetada no planetário.
No entanto, em noites nubladas, quando seus olhos foram tapados por um pedaço de papelão, ou ainda nos casos em que foi projetado apenas um punhado de estrelas brilhantes no planetário, os insetos tiveram dificuldades significativas para seguir em um caminho linear.
Via Láctea é vista com detalhe no centro da foto
(Foto: Terje Sørgjerd /TSO Photography)

Via Láctea
Com base nesses experimentos, os pesquisadores concluíram que, na natureza, os besouros não estavam usando estrelas individuais como bússola, mas o conjunto brilhante de luz estrelar da Via Láctea.
“Esta descoberta representa a primeira demonstração convincente do uso do céu estrelado como guia de um inseto e fornece o primeiro uso documentado da Via Láctea para orientação no reino animal”, escreveram os pesquisadores na revista “Current Biology”.

Kafka e suas fobias

“Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto”. O livro “A Metamorfose”, de Franz Kafka, narra a história fantástica de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que se vê obrigado a suportar todas as despesas da família, e que certa manhã, ao acordar cedo para o trabalho, constata que se transformou num escaravelho.
De início, as suas preocupações centram-se na estranha metamorfose e na impossibilidade de cumprir as obrigações profissionais, mas perante a repulsa dos pais, Gregor inicia um complexo processo interior de mutação, que o conduz a uma análise obsessiva do seu contexto familiar e social. À exceção da irmã, que numa primeira fase decide alimentá-lo, todos recusam ajudar Gregor, remetendo-o à sua solitária agonia. Perante este cenário uma nova metamorfose ocorre no seio familiar: o pai, a mãe e a irmã voltam a trabalhar e a família decide perspectivar um futuro onde não existe lugar para Gregor…
Ao que tudo indica, Kafka tinha alguns problemas com pragas. Além desta irônica metáfora sobre o absurdo da condição humana, ama carta de Franz Kafka descrevendo seu medo de uma invasão de ratos em seu quarto e reclamando de gatos no telhado foi arrematada pelo Arquivo Literário Alemão num leilão realizado no fim de semana do dia 8 de dezembro. Escrita para o amigo Max Brond, a carta de quatro páginas é datada de 4 de dezembro de 1917 e foi vendida a US$ 124 mil. Kafka tentava se recuperar de uma tuberculose, na casa da irmã. “O que eu sinto em relação a ratos é mais puro medo. Explorar a origem disso é para psicoanalistas… Como um fobia de bichos, a aparição destes animais é certamente relacionada ao inesperado, inevitável, de certa forma mudo, severo e cheio de propósitos secretos. Sinto como se eles tivessem cavado centenas de túneis pelas paredes à minha volta e estão me espreitando ali…”