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Fato é que não tinha mesmo jeito para a cozinha. Por mais que quisesse e tentasse e se esforçasse para ao menos esboçar um traço do talento da mãe ao dominar a arte culinária, Matheus sempre falhava. Caçula de uma família inteira de chef’s e cozinheiros de mão cheia, sentia o peso de ser o único que não conseguia sequer acertar o ponto do arroz. Ele persistia, mas a entrada continuava sem sabor, o prato principal frio e a sobremesa simplesmente não funcionava. O pobre coitado não acertava uma.
 
E era assim que Matheus passava, dia após dia, depois que voltava do trabalho: forrando a mesa e separando os ingredientes do prato da noite. E com uma receita copiada do livro da nona em punho, estalava os dedos e começava o que ele chamava de “busca de seu verdadeiro eu”. Ele não desistia.
 
Naquela noite não foi diferente. Ligou o rádio na estação dos clássicos e foi de encontro a toda aquela fartura de açúcares, corantes, frutas, farinhas, caldas, melados e ovos. E quando a coisa toda estava em plena atividade, parecia um campo de batalha. Não só a massa que Matheus enfornava, mas a cozinha inteira parecia um enorme bolo de frutas.

Uma vez a massa dentro do forno, estava ali a brecha para limpar a bagunça. Foi quando não pode deixar de notar um aglomerado de pequenas formigas se formando sobre os torrões de açúcar em volta da batedeira. A partir de então, Matheus era puro pânico e urgência. Aquilo estava mesmo acontecendo? A cozinha dele, o lugar que mais gostava no mundo, estava infestada? Não podia acreditar.
 
Sem pensar mais em nada, pegou o telefone e discou: 3423-2500. Desligou com compromisso marcado logo pela manhã: o Exterminador iria visitá-lo. Mais tarde, mesmo tranquilizado pela ligação, não conseguia dormir. Passou a noite vigiando, esperando o sol nascer em sua janela. A espera foi longa, mas antes que a manhã pudesse aquecer o jardim, lá estava ele.

A espera foi tanta, que o Exterminador quase reluzia na soleira. Era um herói para Matheus. O Exterminador entrou na cozinha pronto para o trabalho, levou um tempo para preparar tudo e quando finalmente terminou, elegeu o ponto de partida: a massa num tabuleiro coberta pelos bichinhos que se revezavam para carregar as migalhas. Ele avançou até o balcão e foi quanto aconteceu. Matheus soltou um grito que fez as paredes tremerem.

– NÃÃÃÃÃO!
– O que foi? – perguntou o Exterminador
– Só agora percebi – disse Matheus apontando para o tabuleiro – eu consegui! Finalmente consegui!
O Exterminador o encarou sem entender nada. Ao que Matheus explicou, feliz:
– Preparei um autêntico bolo formigueiro.

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