Vamos Comer Insetos Em 2050?

Vamos Comer Insetos Em 2050?

Corre o ano de 2022. Num planeta onde os alimentos naturais, como a fruta, os legumes, a carne, desapareceram devido à poluição, à superpopulação e ao esgotamento dos recursos, o detetive Thorn (Charlton Heston) investiga um assassinato na empresa Soylent Green, mas acaba por descobrir uma verdade mais terrível: a comida que produzem e vendem ao mundo inteiro é feita de carne humana. O filme chama-se “À Beira do Fim”, e foi visto por milhares de pessoas em 1973, mas a realidade começa a aproximar-se da ficção: afinal, o que vamos comer dentro de 35 anos, quando a Terra for habitada por 9 mil milhões de seres humanos?

O consumo de carne humana não é a solução apontada pelos investigadores e CEO que se reuniram em Lisboa nos dias 13 e 14 de fevereiro, mas a carne de insetos (desde vermes da farinha a grilos e gafanhotos) pode ser uma das formas de obter a quantidade de proteínas necessária para uma alimentação saudável. Uma ideia como a C-Fu (ver caixa) pode ajudar a combater a fome de milhões de pessoas, emitindo, ao mesmo tempo, uma quantidade consideravelmente menor de gases de estufa do que a produção atual de gado bovino, por exemplo.

Na verdade, o consumo de insetos já é popular na Ásia, mas os europeus e norte-americanos reagem, muitas vezes, com expressões de desagrado. Por isso, a CFu é um queijo ou tofu que pode ser transformado em patê para barrar ou noutros pratos. Este projeto, que estava entre os dez finalistas do concurso de ideias Thought for Food (TFF) Challenge, não chegou a merecer uma menção honrosa nem um prémio do júri, composto por investidores de varias áreas, incluindo sete ‘venture capitalists’ de indústrias de tecnologia de ponta Silicon Valley e São Francisco. Os projetos que arrebataram o prémio principal, de 10 mil dólares, e o prémio dos jovens investidores, de 5 mil dólares, tinham um foco bem diferente: reduzir o desperdício, que chega a atingir cerca de 50% dos produtos alimentares antes destes chegarem ao consumidor em algumas partes do mundo. “Trata-se principalmente de mudar maneiras de pensar”, considera Shari Cohen, membro da equipa Food Up!.

Da parte dos investidores, Steve Dauphin, gestor de venture capital e diretor para assuntos relacionados com a agricultura no fundo Kirchner, argumenta que faz sentido investir nestas ideias agora porque “elas vão crescer e, eventualmente, vão aceder ao capital tradicional”. Assim, o programa Fund the Food, em que participa, “resolveu dar este dinheiro [o prémio de 5 mil dolares] a jovens investidores, para que este decidam como investi-lo,
já que, aqui, são os jovens a procurar soluções e os jovens a decidir a que solução alocar os fun-dos”, diz Dauphin.

Outros patrocinadores da cimeira TFF em Lisboa, que incluíam a gigante Monsanto (que pagou parte das viagens dos estudantes que ficaram uma semana na capital portuguesa), a suíça Syngenta, uma das maiores empresas de ‘agribusiness’, ou seja, venda de sementes e produtos químicos para a agricultura, a organização de caridade Changemakers e a Microsft, concordam, com certeza, com a visão da organização da cimeira. “Concentramo-
nos em resolver o desafio da segurança alimentar, tal como definido pelas Nações Unidas (quando todas as pessoas, em todas as alturas tem acesso a suficiente comida segura e nutritiva para as suas necessidades e uma vida ativa) e não nas soluções específicas apresentadas, tais como a soberania alimentar”, defende Christine Gould, co-fundadora da TFF e relações públicas da Syngenta.

A noção de soberania alimentar, que inclui o fim das patentes de sementes, por exemplo, para que se possa  assegurar que essa alimentação, além de segura, respeita critérios de sustentabilidade ambiental, humana e social, é, para Gould, “algo que os estudantes podem e devem explorar como uma das formas para atingir a segurança alimentar para mais de 9 mil milhões de pessoas” em 2050. A iniciativa contou ainda com o apoio da empresa portuguesa Start Up Pirates da Câmara Municipal de Lisboa.

O SUPER-TOFU DE INSETOS
As Nações Unidas, a FAO e a União Europeia concordam: os insetos são a carne do futuro. Mas, se podem provocar algumas reticências nos consumidores, sobretudo na Europa e América do Norte, a equipa de investigadores dos EUA e Canadá que inventou o C-Fu conseguiu a forma de dar-lhes a volta.

Esta espécie de tofu ou queijo enriquecido com nutrientes como ómega 3 e ferro pode ser cozinhado de mil e uma maneiras ou usado como ingrediente básico para receitas variadas e exóticas. Outras utilizações incluem a alimentação de animais, que consome, atualmente, uma quantidade incrível de recursos que podiam ser canalizados para acabar com a fome de milhões de pessoas. O ingrediente chave, por agora, e o verme da farinha, mas outros insetos, como os grilos ou os gafanhotos, podem ser utilizados para o fabrico de C-Fu.

Segundo os inventores da C-Fu, o produto pode ser testado, numa primeira fase, na Ásia, África e América do Sul, mas a ideia central é “redefinir o comestível”.

AS VENCEDORAS: COMIDA FRESCA AO SOL
Usar o sol para arrefecer comida que pode estragar-se durante o armazenamento ou transporte é a uma das inovações que a equipa criadora do sistema FoodFresh apresenta, mas as novidades não ficam por aí. Esta ideia pode reduzir o desperdício de alimentos de 50% para 20% ou até menos, dizem, o que seria um ganho imenso,  sobretudo nos países menos desenvolvidos.

Afinal, se contássemos com toda a comida que é produzida hoje em dia e, muitas vezes, desperdiçada antes de chegar ao consumidor ou numa fase posterior, a fome não seria o enorme flagelo que esta cimeira tenta combater. Porém, a FoodFresh inova ainda ao usar uma energia limpa e gratuita. A micro-câmara solar que as quatro investigadoras do Bangladesh, a equipa InnoVision, idealizaram poderá ser comprada por apenas 10 dólares e utilizada por agricultores, comerciantes ou até consumidores, sem gastos adicionais de eletricidade. Em países como o Bangladesh, onde mais de 70% da população depende diretamente da agricultura local, preservar os vegetais e a fruta de uma forma ambientalmente sustentável pode ser a chave para o futuro.

A MENÇÃO HONROSA: UM CAMIÃO INTELIGENTE
A equipa Aahaar, da Índia, imaginou um mundo onde um agricultor que produza uvas na sua quinta de quatro hectares deixa de perder 50% da colheita ate chegar ao mercado, a 12 horas, por causa das más condições de
transporte e armazenamento, usando um camião que adapta a temperatura de acondicionamento ao longo da viagem. No dia seguinte, o mesmo camião pode ser utilizado pelo camponês vizinho, para levar morangos em perfeitas condições ao supermercado ou hipermercado mais próximo.

O sistema custa apenas 25 dólares a instalar, assim que estiver completamente operacional, dizem os quatro fundadores da Aahaar, custos estes que podem ser partilhados. Esta é outra solução que reduz o desperdício, que, segundo alguns especialistas, é a maior causa da fome endémica que grassa na Terra. O camião S.M.A.R.T., criado pela equipa da Universidade de Tecnologia de Bombaim, prevê diferentes temperaturas e períodos de arrefecimento para diferentes produtos agrícolas, sendo ainda uma forma de poupar energia em grandes superfícies como a Walmart.

UMA COMUNIDADE CITADINA DE COMIDA
Os estudantes australianos do projeto Food Up! querem criar uma comunidade nas cidades à volta de uma das formas mais antigas e mais agradáveis de as pessoas se juntarem: comer. Através da instalação de uma pequena  “horta vertical” em cada varanda, cada pessoa ou família, num espaço diminuto, pode plantar alguns vegetais ou  frutos e ainda aproveitar restos de lixo orgânico para produzir terra. A compostagem, com a ajuda de minhocas que  cabem numa prateleira da “torre” Food Up! não liberta cheiros desagradáveis e, além de reduzir a quantidade de lixo produzido por cada casa, é uma peça importante na tomada de consciência para as questões ambientais. Depois, os vegetais que a família não consumir podem ser trocados com os vizinhos que tenham outros tipos de legumes na sua horta de varanda, através de uma aplicação informática criada para o efeito. O conjunto, segundo os  cinco estudantes de Melbourne, e eficiente, poupa espaço e contribui para mudar a forma de pensar das populações citadinas, que já constituem a maioria das pessoas do mundo.

Fonte: OJE

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