Uma dedetização para o velho Moacir

Uma dedetização para o velho Moacir

O velho Moacir estava mesmo ficando maluco. Era o que pensava toda a família. Não  porque dançava sem música, falava sozinho, trocava os nomes, esquecia o próprio ou nunca

calçava os sapatos com seus pares corretos. Ele estava caducando porque estava vendo coisas, era o que diziam. Prova disso era quando Moacir se punha a cismar que o quadro do ancestral mais antigo de que a família tinha notícia, Sr Hudo II, estava sempre mudando, que ficava diferente a cada dia.

– Ele está diferente, estou dizendo. As roupas são a  mesma, mas a cara de pastel é outra – esbravejava o velho.

– Papai, quadros não mudam. No máximo envelhecem, soltam a moldura, desbotam, mas eles não mudam, são quadros. – dizia Pedro, o primogênito.

Mas Moacir não arredava pé:

– Vai ver ele sai para dar uma volta quando ninguém está olhando, vai até a lagoa e volta assim, com a cara diferente.

Vovô está velho demais, era consenso. Para todo mundo, menos para Moacir, o quadro e Hugo II eram sempre os mesmos. A moldura pomposa em trança marrom e dourada e no centro um homem mais pomposo ainda, boina de veludo vermelho, uma túnica preta cravejada de pedrinhas verdes, uma pele reluzente, um bigode imenso e aquele sinal inconfundível, marca registrada de Hugo II, uma pinta escura logo acima da boca.  Esperaram o maior tempo possível na esperança de que o vovô melhorasse, mas não tinha mais jeito. Moacir continuava vendo uma cara de pastel diferente a cada dia. Já haviam providenciado tudo para a internação do velhote, até que uma simples visita mudou tudo. O Exterminador chegou ao casarão para resolver o velho problema com as moscas. Dedetização nunca é demais.

– É nosso avô, não está bem. – avisou a filha mais velha quando Moacir tentou explicar ao Exterminador a estranha mudança de aspecto do seu tataravô.

Mas dado à curiosidade extrema, o Exterminador se aproximou do quadro e concluiu: o velho não estava nada louco, aquele quadro podia facilmente se modificar a qualquer momento.

– Mas como? Assustaram os netos e os filhos.

O Exterminador deu duas batidinhas na borda e a enorme pinta de Hugo II, a famosa, saiu voando.

– Vocês têm mesmo bastantes problemas com moscas por aqui.

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