Respeitável público

Respeitável público

Mais de vinte. Essa era a quantidade de especialistas entre veterinários, biólogos e até cientistas que tentaram entender o curioso caso do cão-palhaço. Esse era o apelido dado a Bolinha, o pequeno cãozinho de Hugo. E não era por acaso. Todos os dias, ao voltar do trabalho, o rapaz encontrava o bichinho transfigurado. Uma peruca colorida por cima das orelhas e um nariz de palhaço em seu focinho curto.
No início, Hugo imaginou ser brincadeira das crianças do bairro. Era fácil, pensou. Elas pulavam a pequena cerca que contornava o quintal e aprontavam a valer com Bolinha que, sempre que acontecia, fazia festa. Ele adorava aquelas crianças.

Mas Hugo não poderia estar mais enganado, tudo aquilo era mais sério do que imaginava. O tal fenômeno se repetiu por dias infinitos. Acabou descartando as crianças, que se cansavam fácil das mesmas travessuras. Ficou tão preocupado de ver Bolinha amanhecer palhaço por semanas inteiras que começou a faltar no trabalho de pura inquietação. Ligou para todos os especialistas da cidade. Nenhum deles desvendou o mistério.

Hugo foi ficando cada vez mais angustiado, Bolinha o encarando com aqueles olhinhos tristes cortava-lhe o coração. Decidiu que vigiaria o cão ele mesmo durante a madrugada. Passaria noites em claro até descobrir o que estava acontecendo. Mas foi em vão. A única coisa que descobrira foi que tudo acontecia muito rápido. Bastava uma pausa para tomar um café para espantar o sono que lá estavam: peruca furtacor, nariz de palhaço e um Bolinha muito confuso.

Era o fim. Até mesmo a família ia até sua casa para tentar consolá-lo, convencê-lo de que fosse tanto melhor se Bolinha saísse dali, que achasse um novo lar. Certa vez, numa dessas visitas, a primeira da qual a irmã participava, a moça interrompeu o conselho de sempre, desta vez dado pela tia, para dizer:
– Não será necessário tirar o Bolinha daqui. Ele só está com algumas pulgas.
– Não, irmãzinha. Os veterinários não encontraram nenhuma. Você está vendo coisas.
– Acontece que não são pulgas comuns. Venha ver.
Quando Hugo se aproximou, levou um susto. Com ajuda da lupa que a irmã segurava, viu o que só pensava existir nos desenhos animados: um circo de pulgas onde a dupla de palhaços era ele e o pobre Bolinha.

No dia seguinte, o Exterminador tocava a campainha.

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