Psicanalista

Psicanalista

“Doutor, eu relutei por muito tempo. Há muitos dias ando pensando em como contar tudo isso pra você. Tentei levar uma vida normal, acordar, ir trabalhar, dirigir, comer, conviver, dormir. Mas depois de tudo isso, é muito difícil. Meus familiares, nenhum deles consegue compreender. Já me colocaram apelidos, me chamam de coisas terríveis, doutor. Meus amigos se afastaram, pensam que perdi o juízo. Até mesmo meu cachorro parece não gostar mais da minha companhia. E, antes de acabar por assustar o senhor também, vou lhe contar como tudo teve início.
Há três meses, ou mais, comecei a ver as coisas de um jeito diferente. Literalmente. Antes, era um pequeno buraco na porta, uma fenda nos armários, pequenas marcas nas molduras dos quadros. Mas depois, as visões ficaram mais graves: meu guarda-roupas de repente não tinha mais portas, a mesa da cozinha se partiu em duas e  minhas cadeiras ficaram sem as pernas. Você entende, doutor? Estou enxergando as coisas sem as suas partes. Já fiz dezenas de exames de vista, doutor. Demorei a aceitar a dura verdade: estou ficando completamente louco.”

Depois de ouvir passivamente todo o relato desesperado do rapaz deitado no divã, doutor Pedro, um dos mais renomados psiquiatras da cidade, falou, sem rodeios:

– Pois bem, temos um caso grave aqui.

Dizendo isso, alcançou o telefone. Enquanto discava, o rapaz se imaginava saindo dali numa camisa de forças. Do outro lado da linha, alguém atendeu. Em seguida, Pedro falou:

– Exterminador, tenho aqui um jovem rapaz com um grave problema: infestação de cupins.

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