De nada, sogra

De nada, sogra

O correio chegou cedo. O carteiro segurava com dificuldade o que parecia ser o acúmulo de correspondências de um ano inteiro. O destinatário cuidadosamente descrito em caneta azul: “Exterminador”. “Será que esqueci algum equipamento em algum lugar? Comprei algo de que não me lembro? A mamãe fez outra de suas tortas tamanho família?” Enquanto agradecia o carteiro e tomava o pacote nos braços, o Exterminador forçava a memória para desvendar o que estava debaixo do embrulho. Logo que fechou a porta, apoiou o embrulho na mesa e abriu.

Primeiro foi espanto, mas depois reconheceu o jeito de falar: Margarida, cliente da semana passada, eufórica, agradecia no cartão: “Meu herói, não tenho palavras para agradecer o bem que seus serviços fizeram a minha casa e, principalmente, a mim. Sua admiradora, Margarida”. Uma generosa cesta de café da manhã com toda a sorte de pães, bolos, chocolates e mimos surgiu detrás do plástico colorido.

Cuidou de resgatar o número de Margarida nos registros da Insetan. Prontamente, ligou para agradecer:

– Bom dia, Margarida! – cumprimentou o Exterminador.
– Olá, herói!
– Bela cesta, hein! Fico feliz que tenha gostado da nossa dedetização.
– Ah, sim! Eu adorei! Agora sim posso aproveitar minha casa do jeito que eu queria. Estou livre!
– Claro, Margarida, sem todos aqueles carrapatos, pulgas e insetos inconvenientes tudo fica melhor, né.
– Não, querido, estou falando de meu genro. Acabou se mudando daqui. Acho que se sentiu sozinho sem a companhia de outros parasitas.

Belo jeito de começar o dia.

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