Baratalândia

Baratalândia

O cenário era o de um filme de terror: a casa gigantesca, paredes escuras, jardim mal cuidado, telhado repleto de morcegos. O casarão abandonado da esquina fazia medo até mesmo em dias de sol, considerando que durante o dia, tudo ainda ficava quieto e, quando chegava a noite, se transformava em algo ainda mais pavoroso. Toda a vizinhança tinha arrepios à simples ação de dividir com ela a mesma calçada.

Apesar de desabitada há muito, não eram raros os relatos de que, ao cair a noite até madrugada adentro, a casa simplesmente ganhava vida. Quieta e silenciosa na claridade, depois de o sol sair de cena, tudo se punha a vibrar lá dentro. De um jeito assustador.  Já escura por natureza, a construção se enchia ainda mais de sombras. As dobradiças das janelas rangiam alto, a porta batia. O vento, que entrava manso, lá dentro era um intenso redemoinho.

Mas para além disso tudo, o que mais assustava as pessoas eram as sombras. Formas estranhas se contornavam nos quartos, banheiros e sala de estar com a luz dos postes. Alguns diziam que eram apenas as folhas, mas a maioria tinha certeza: a casa era mal assombrada. Aquelas criaturas cheias de braços não poderiam ser humanas, eram fantasmas ou monstros, quem sabe.

Até que um dia, todo o mistério veio abaixo. O Exterminador, que voltava de uma dedetização na vizinhança, logo que soube da existência de tal lugar, não se conteve, ia entrar e descobrir o que eram aquelas criaturas de formas tão medonhas. Quando chegou à porta, parecia um espetáculo. Todo o bairro apareceu para assistir. Muitos já previam um massacre, outros, juravam que o Exterminador jamais sairia de lá.

Quando entrou, porém, a adrenalina virou uma sensação de dejavu. As sombras que dançavam medonhamente contra a luz da rua eram de velhas conhecidas suas, as baratas.

  • Não se assustem, pessoal. O que temos aqui é uma Baratalândia e nada mais. – disse o Exterminador à multidão que aplaudia.

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