A outra

A outra

“Os primeiros anos do casamento são os mais difíceis”. Era o pensamento que mais lhes ocorria. Cavando, não tão fundo, na memória, foi o que os amigos casados há mais tempo lhes disseram no dia em que entraram na igreja. Carla e Augusto já andavam experimentando a fase turbulenta do início da vida juntos.  As discussões começavam com a clássica toalha molhada em cima da cama, passavam pela porta da geladeira que ele prometeu consertar há dois meses e terminavam em uma ferrenha disputa ao decidir o programa de sexta à noite, que nem sempre terminava bem.

Tempos difíceis, pensava cada um em segredo. Por outro lado, nunca pensaram que seria fácil. Por isso, decidiram deixar o tempo passar. Quem sabe ele, com sua ação implacável, conseguiria consertar o mau tempo. Seguiram então numa calmaria que há muito não aproveitavam até a reviravolta chegar em forma de uma infestação de verão. De repente, a casa se tornou um verdadeiro formigueiro.

No pote de açúcar, nos biscoitos caseiros guardados nos potes decorados, nos armários e até mesmo invadindo os azulejos da cozinha. Os insetos acabaram por romper o custoso cessar-fogo conquistado pelo casal. Parecia que, para cada formiga a passear pelos ladrilhos, eclodia uma discussão. E foi assim, aos gritos, que o Exterminador foi recebido na casa.

Enquanto começava seu trabalho, o Exterminador testemunhou a discussão da vez: o motivo era o misterioso sumiço de certa caixa de doces, presente dado por Augusto na ocasião da última reconciliação. Segundo Carla, no dia depois de recebida, a caixa desaparecera. Será que Augusto a aproveitou para presentear outra pessoa? Era a acusação de Carla. O Exterminador, ouvindo aquilo tudo, se conteve até não conseguir mais segurar o ímpeto de falar do que sabia.

– Carla, de fato – começou em tom sombrio – seus doces foram comidos.
Carla se voltou para ele, sobressaltada:
– É mesmo uma outra?
– Sim, o nome dela é F O R M I G A.

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