Parte fundamental do ritual de acasalamento, revoadas de tanajuras se multiplicam no Rio

Parte fundamental do ritual de acasalamento, revoadas de tanajuras se multiplicam no Rio

RIO — O naturalista francês Auguste de Saint-Hillaire, que morreu em 1853, uma vez fez o alerta que entrou para a história: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Nos últimos dias, revoadas de tanajuras (como são chamadas as saúvas fêmeas virgens) e bitus (o macho da espécie) foram vistas em vários pontos da capital, até mesmo na Ilha de Paquetá. Nesta terça-feira, por exemplo, ao amanhecer, o Mirante Dona Marta foi encoberto por uma nuvem dos insetos. Segundo o professor Eurípedes Barzanulfo, um dos maiores especialistas do país em saúvas, o fenômeno acontece porque é época de acasalamento da espécie.

Ainda de acordo com o estudioso, a reprodução dos insetos normalmente acontece em setembro e outubro, mas este ano, devido à falta de chuvas, se estendeu até dezembro. Barzanulfo, que é professor aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, explicou que a revoada faz parte do ritual de acasalamento.

Antes de levantar voo, as fêmeas põem um fungo na boca e depois liberam no ar um feromônio. A substância atrai os machos da espécie. Depois de serem fecundadas, as tanajuras perdem as asas e passam a ser chamadas de saúvas. De acordo com o especialista, somente as fêmeas fecundadas sobrevivem. Já para os machos não há escapatória: todos morrem depois da revoada.

— As formigas liberam um feromônio que atrai os machos, mas não os irmãos. É um forma de a espécie evitar a consanguinidade. Sem as asas, elas caem na terra e cavam os buracos para depositar os ovos — acrescentou o especialista.

Ele disse ainda que, no interior, as revoadas são conhecidas como prenúncio de chuva. Isso porque os insetos costumam fazer o voo nupcial antes de dias chuvosos, pois a terra molhada facilita à fêmea a tarefa de cavar bem fundo para fazer o ninho, deixando os ovos a salvo de predadores.

Além do acasalamento, o voo dos insetos acaba tendo outra utilidade: é uma boa oportunidade para pássaros famintos, que atacam as nuvens de tanajuras para se alimentar. Em terra, as formigas também são caçadas, inclusive por predadores humanos: em algumas regiões do país, elas são consideradas uma iguaria pela população.

Barzanulfo ressalta que as formigas não são inofensivas. Elas não têm veneno, mas suas potentes mandíbulas podem produzir dolorosos cortes na pele humana. Conhecidas como cortadeiras, podem também ser uma praga para as plantações, devorando tudo que encontram pela frente. As partes das plantas cortadas pelas saúvas são levadas para o formigueiro, onde servem de substrato para o cultivo do fungo do qual se alimentam.

Fonte: O Globo

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