Infestação na Ilha dos Amores, na Pampulha, é obstáculo para local ser aberto à visitação

Infestação na Ilha dos Amores, na Pampulha, é obstáculo para local ser aberto à visitação

Cercada por uma nata de algas espessa na água, que de tão assoreada quase forma uma ponte de lixo e terra até as margens da Lagoa da Pampulha, a Ilha dos Amores é uma formação isolada e misteriosa, que desperta a curiosidade de quem frequenta a orla concebida pelo arquiteto Oscar Niemeyer. De longe, as copas das árvores recaem sobre a porção de terra como franjas densas que não permitem visualizar o seu interior. Alvo dos projetos da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) para a requalificação da Pampulha após o processo de despoluição e do possível reconhecimento do conjunto arquitetônico como patrimônio cultural da humanidade, a ilha pode se tornar um espaço para a observação de pássaros a partir de passeios náuticos, segundo informou o vice-prefeito e secretário municipal de Meio Ambiente, Délio Malheiros. Mas, para isso, obstáculos que colocam em risco a saúde humana – como infestações maciças de carrapatos e piolhos – ainda precisam ser superadas, como mostra a reportagem do Estado de Minas, que navegou até a ínsula artificial projetada pelo arquiteto carioca para ser uma simples composição paisagística.

Para chegar até a ilha foi preciso autorização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), que opera uma balsa usada para chegar ao destino. A partida é do Parque Ecológico da Pampulha, de um atracadouro onde todas os dias chegam mais de 10 toneladas de lixo, pneus, garrafas impregnados pela calda grossa de algas do espelho d’água. Logo nos primeiros metros de navegação, a textura das franjas das árvores que lacram o interior da ilhota mudam de cor, passando de verde para cinza esbranquiçado devido à cascata de fezes despejada diariamente pelas aves que fazem ninhos naqueles galhos. Mas há também flores vermelhas, roxas e árvores paisagísticas de belas folhagens, onde garças e outros animais repousam.

Antes mesmo de entrar na ilha, uma imagem sinistra ajudou a compor a atmosfera de mistério daquele espaço. No alto, pendia um biguá girando ao vento com o pescoço enforcado numa linha de náilon presa a um galho. A espécie pernalta que voa, pesca e nada naquelas águas provavelmente ficou presa naquele local e morreu por ter a linha, que pode ser de pipa ou de pesca, presa ao pescoço longo.

Na ilha não há nenhum ponto específico para atracar ou porto, por isso, quando a balsa da Sudecap atinge o barranco, a tripulação e os passageiros precisam saltar de uma vez para dentro da ilha. A imagem do biguá enforcado logo ressurge como o prenúncio das primeiras imagens que se vê ao entrar na ínsula: um grande cemitério de pássaros com ossos de todos os tamanhos e formas pelo solo, alguns ainda presos a penas de várias cores. O som de pios e cantos de aves se misturam numa sinfonia intercalada que lembra a de uma mata tropical, jardim botânico ou viveiro de pássaros. Os animais ficam empoleirados nos galhos de copas que também sustentam dezenas de ninhos de palha e gravetos.

As árvores, arbustos e folhas que recobrem o solo num tapete com quase um palmo de profundidade também são caiadas pelas fezes brancas e plumas das aves posicionadas do alto. E não são as únicas coisas que os socós, savacus, maçaricos e outros pássaros deixam cair. Uma das exigências para a visita à ilha é justamente cobrir a cabeça com chapéus e usar camisas de mangas compridas para evitar os piolhos que infestam esses animais alados.

As capivaras também estão por toda parte, muitas vezes em bandos com filhotes que mergulham e desaparecem nas águas verdes à menor aproximação humana. Os ossos desses animais também ficam espalhados e são característicos, devido aos crânios parecidos com os de ratos e dotados de orifícios grandes para os dentes incisivos desses roedores. Contudo, funcionários da Sudecap e biólogos afirma que os ossos não são resultados de ataques dos mais de 20 jacarés da lagoa, uma vez que os répteis não são vistos com frequência na formação.

Outro vestígio das capivaras é o maior perigo de quem entra na Ilha dos Amores: os carrapatos que parasitam esses roedores e se espalham nas touceiras e folhagens baixas das árvores. Entre os insetos hematófagos, há carrapatos-estrela, que, quando contaminados, transmitem a febre maculosa, que pode ser mortal ao homem contaminado. Por esse motivo, a estada na ilha artificial não pode passar de 15 minutos.

Na hora de deixar a ilha, roupas e coletes salva-vidas precisam ser batidos com paus para remover os carrapatos, numa técnica de eficácia limitada. De acordo com a Sudecap, atualmente, nenhuma atividade é desempenhada na ilha, que é apenas vistoriada por fora pelo órgão.

Segundo o vice-prefeito, Délio Malheiros, o aproveitamento da Ilha dos Amores seguirá os mesmos planos da área assoreada e coberta de mato na Enseada das Garças. “Vamos fazer levantamentos de biodiversidade nesses locais para não afetar nenhum ninho e ver também as estruturas que poderão ser instaladas com o tombamento, já que nem todo tipo de interferência pode ser feita. Mas estou certo de que são espaços de lazer e contemplação. Poderemos ter um ponto de visitação, de esportes náuticos, pode ser um ponto de parada para roteiros, mas com regras que respeitem o tombamento e o reconhecimento como patrimônio da humanidade”, disse Malheiros.

Fonte: EM

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