Onde há um rato, há cinco

Onde há um rato, há cinco

Já passava da meia noite, todos na casa dormiam. Quase todos. Havia pelo menos uma criatura acordada passeando pela casa e outra – no caso, eu – prestando atenção em qualquer movimento diferente. Estava alerta, mas bem disfarçado, fingindo que estava dormindo pra não levantar suspeitas. Tenho certeza de que ele estava andando de um lado para o outro, apenas procurando formas de me atormentar, mas me disseram que todo esse esforço em nos incomodar, faz parte da louca e desenfreada procura por alimento. DUVIDO! Há dias, esse animal me desafiava.

Nada discreto, o ser, que parecia ter menos de 30 centímetros, avançou para a sala onde estava a estante de livros. O que se seguiu foi uma verdadeira saga.

A partir do momento em que percebi o barulho das pequenas passadas daquele intrometido inconveniente, fiz questão de que todos na casa soubessem que estávamos sob ataque.

Eu já desconfiava que tínhamos companhia há algumas semanas, quando percebi alguns “presentinhos” que ele deixou na despensa. Só não sabia que era tão difícil me livrar dessa visita. Mesmo supondo que a população da casa tinha aumentado, não comentei sobre as minhas desconfianças com ninguém. Precisava ter certeza antes de causar todo um alvoroço.

Minha esposa estremece à simples menção da palavra “rato”. Quando passamos na porta de qualquer loja de animais que tenha algum hamster na vitrine, ela já se arrepia e fala: “como alguém, em sã consciência nesse mundo, tem coragem de pagar pra levar um monstro desses pra casa”. Só com isso dá pra perceber do que estamos falando. Se eu contasse para ela que eu achei vestígios de ratos na despensa, em menos de 5 minutos, ela estaria de malas prontas tirando o carro da garagem indo em direção à casa da minha sogra.

A vassoura já estava atrás da porta do quarto para qualquer emergência noturna. E estávamos passando por uma naquele momento. Não poderia permitir que aquele pequeno intruso chegasse aos meus preciosos livros. Levantei, peguei a vassoura e aproveitei para me preparar para a guerra que estava prestes a estourar. Vesti as calças e coloquei as barras para dentro do sapato para evitar outros transtornos. Fechei a porta e fui para a batalha.

Lá estava ele, encurralado. Entre a cruz e a espada, digo, entre a prateleira de livros, a parede e a vassoura. Quando levantei a vassoura ele correu para debaixo da estante. Fechei os olhos e as vassouradas começaram. Também comecei a sapatear (mas essa parte não costumo contar pra todo mundo).

Nunca poderia presumir que, daquele tamanho, o bichinho pudesse se espremer tanto para entrar numa fresta de menos de 2 centímetros. Nem a física, tampouco Freud explicam isso. Um minuto depois já tinha retirado mais de 30 livros do lugar para poder arrastar o móvel e, quando o encontrei, foi como se achasse uma nota de cem reais esquecida no bolso do paletó que não vestia há mais de 1 ano. O Vade Mecum da minha filha virou a arma, mas é claro que ele sobreviveu. Não abaixa a cabeça para as próprias leis da física, quanto mais para as leis brasileiras.

A esta altura, já escutava um chinelo arrastando pelo corredor e a voz sonolenta e assustada da esposa: “o que está acontecendo? Ficou doido, é?” Meu tempo estava acabando. O problema deveria ser resolvido já. Arrastei a estante e lá estava ele, bem no rumo, o desespero foi tanto que empurrei a estante para amassá-lo e consegui. Escutei o gritinho, mas o bicho é esperto.

Quando o grito parou, pensei que tinha capturado a praga, mas o danado já estava escalando a parede, perto do teto, olhei e vi que ele estava dando gargalhadas me olhando todo suado lá de cima. De raiva, peguei os livros, levei pro quarto e fechei a sala. Um banho também era necessário, amanhã o dia seria longo e começaria logo cedo.

Nessa hora, percebi que a medrosa já estava na cozinha comendo chocolate de tão aflita. Fomos dormir.

Às 7 em ponto, o telefone já estava na mão, 3423-2500…

“Alô, preciso que venham urgentemente na minha casa me livrar de ter meu estado civil alterado”, supliquei para a atendente. “Acalme-se, senhor”, a telefonista pediu. Ela já deve estar acostumada com esse tipo de desespero matutino, presumo. “De que infestação estamos falando?”, ela perguntou. “É uma infestação de um rato”, respondi. Em menos de uma hora, já tinha um técnico fazendo outras perguntas lá em casa. Depois de meia dúzia de questionamentos, o caça-ratos retirou outra meia dúzia de apetrechos da bolsa e os instalou.

“Duvido que isso solucione o problema”, questionei. “Esse rato é o demônio! Estou caçando ele há mais de uma semana”. Iscas, armadilhas e uma frase estranha: “você precisa ter paciência, vamos pegá-los”. “Eles?”, perguntei. “Sim, os ratos são animais bem sociáveis, eles vivem em colônias e saem de seus esconderijos para buscar alimento para toda a família. Junto deste que você viu ontem, devem haver pelo menos outros cinco”, explicou o técnico.

Bom, quanto ao desfecho da história, não tenho muito a dizer. A não ser pelo trabalhão que deu organizar todos os livros de volta na prateleira. Nunca mais vi sombra de rato algum. Quanto à minha doce esposa, reagiu bem à situação, mas ainda não pisa na tal sala.

 

Deixe seu comentário

62 - 55 =