Borboletas, formigas e orégano fazem ménage à trois da natureza

Borboletas, formigas e orégano fazem ménage à trois da natureza

Pode ser difícil imaginar um ménage à trois, satisfatório para todas as partes, em que um membro tenta desalojar outro com um gás tóxico e um terceiro come os filhotes dos outros dois. Mas esse arranjo existe, e um dos participantes pode até estar guardado tranquilamente na prateleira de temperos da sua cozinha.

A história começa com a borboleta azul, que costuma colocar seus ovos nas plantas de orégano selvagem. Depois que nascem, as lagartas mascam os botões das flores por duas semanas e então, uma noite, caem no chão.

A maioria das formigas se alimenta no meio do dia, mas ao marcar sua queda para o crepúsculo, o bebê lagarta acaba adotado por uma formiga vermelha do gênero Myrmica, que se alimenta apenas quando está anoitecendo. Adotando a postura de uma larva e soltando um cheiro que imita o da própria Myrmica, a lagarta engana a formiga, fingindo ser um filhote perdido do formigueiro.

Levada para o ninho da debaixo da terra, a lagarta adotada não permanece impotente e enjeitada por muito tempo. Ela começa a adquirir influência na sociedade imitando os pequenos barulhos que a rainha das formigas faz. E, depois de ganhar um bom status no ninho, pode alcançar o objetivo de sua visita: comer as larvas das formigas.

As próprias formigas usam suas larvas como alimento quando os tempos estão difíceis, por isso, não veem como algo tão terrível o comportamento canibal de sua visitante ilustre.

A lagarta se empanturra com as larvas de formigas por dez meses, aumentando seu peso cerca de 50 vezes, até chegar a hora de virar casulo e depois borboleta.

A associação da borboleta azul com as formigas já é conhecida há mais de um século. Mas apenas recentemente os pesquisadores começaram a explorar como a borboleta consegue detectar os formigueiros da espécie de formiga por quem suas lagartas são adotadas. (A borboleta, comum na Europa, procura apenas uma espécie do gênero Myrmica, mas as espécies particulares de formigas variam de região para região no território onde as azuis vivem.)

Os pesquisadores ficaram perplexos quando as experiências para testar a habilidade da borboleta de sentir a presença das Myrmicas não surtiram nenhum resultado.

“O fato de que nenhum dos testes parecia funcionar era muito misterioso”, conta Naomi E. Pierce, estudiosa da interação de borboletas e formigas na Universidade Harvard.

Uma solução surpreendente foi proposta por pesquisadores liderados por Dario Patricelli e Emilio Balletto, da Universidade de Turim, na Itália, e Jeremy A. Thomas, da Universidade de Oxford. Eles desenvolveram evidências de que a planta de orégano é uma mediadora crucial entre as formigas e a borboleta azul.

Para afastar formigas e outras ameaças, a planta de orégano solta gases tóxicos. Mas a Myrmica desenvolveu uma habilidade de se desintoxicar do inseticida carvacrol, o principal ingrediente do sistema de defesa do orégano.

As Myrmicas podem não gostar especialmente de carvacrol, mas adoram viver perto das plantas de orégano porque a substância potente afasta as competidoras.

A planta de orégano não fica tão feliz quando os túneis de um formigueiro da Myrmica se espalham sob ela e as formigas podam suas raízes. Elas duplicam a quantidade de carvacrol produzido, de acordo com um relato da equipe de Thomas feito no mês passado no Proceedings of the Royal Society B.

Isso, dizem os cientistas, é a pista para as fêmeas das borboletas azuis que estão procurando o lugar certo para colocar seus ovos. Um cheiro mais forte de carvacrol mostra não apenas qual é a planta certa para as lagartas comerem, mas também o fato de que sob ela, especificamente, há um ninho de Myrmicas.

Fonte: Uol

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